Revista Investidor Institucional, publicação sobre gestores, investidores e investimentos em Private Equity
Ano 1 – Nº 4 – Agosto de 2009.
Carga tributária e legislação trabalhista são maiores dificuldades do negócio.

A competitividade de um país depende diretamente da vocação de sua indústria para inovar, e os investimentos via venture capital podem alavancar o desenvolvimento dessa capacidade. A tese é de Robert Binder, fundador e ex-diretor executivo da Associação Brasileira de Private Equity & Venture Capital (ABVCAP), antiga Associação Brasileira de Capital de Risco. Ele, que acumulou extensa bagagem em seus 40 anos de experiência no mercado financeiro, teve passagens por grandes empresas, como a Texaco Brasil, Chase Manhattan Bank e em diversos negócios próprios. Atualmente, é o presidente da Antera, que tem R$ 100 milhões sob gestão, e também gestor nacional do Fundo Criatec.
Em entrevista ao caderno de participações, Binder afirmou que a indústria de private equity e venture capital é responsável por 12% da economia norte-americana e, no Brasil, responde somente por 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). ”Como temos o mesmo potencial de representação na economia que nos Estados Unidos, há espaço de sobra para crescer”, assinalou. Confira os principais trechos da entrevista.
Participações - Os investimentos em venture capital no Brasil vêm sofrendo algum impacto da crise financeira internacional ?
Robert Binder – Como o investidor de venture capital trabalha mais na base, na área de inovação e de tecnologia, acaba não sendo muito afetado por aquilo que acontece no cerne da economia, que é a produção industrial propriamente dita. E uma coisa é fato: a crise internacional afeta mais as indústrias maduras. Assim, a base da economia, onde começam os negócios, foi pouco afetada e, consequentemente, o VC também. As pessoas continuaram tendo idéias, os empreendedores seguiram sonhando, isso tudo não arrefeceu nem um pouco. Por outro lado, é óbvio que o volume de dinheiro para investimento de capital de risco está bem inferior ao que poderia ser.
Participações - E como está a captação de recursos no exterior para investimentos em empresas brasileiras?
Robert Binder – Se por um lado você tem a crise econômica, por outro há as perspectivas da economia brasileira, que são muito boas. As perdas financeiras estão sendo assimiladas lá fora e aqui dentro também. Mas é importante perceber que aqui os prejuízos estão sendo absorvidos nas indústrias de aço, na Vale, na Petrobras. Outro ponto é que os investidores que continuam operando vão redirecionar seus recursos. Em vez de ficar apostando na economia norte americana, eles vão olhar para a China, em primeiro lugar, e depois para o Brasil.
Participações - No momento, quem precisa levantar fundos por aqui tende a buscar mais recursos públicos?
Robert Binder – O que nós queremos é que o investidor privado seja o nosso principal sustentáculo, isso seria o ideal. No caso do venture capital, principalmente com o ciclo de desenvolvimento maior, das empresas em expansão, não vai haver muito dinheiro público, que deve ir mais para o setor de capital semente mesmo.
Participações – E quais as perspectivas para o setor de VC no Brasil?
Robert Binder – Sem dúvida de haver expansão - eu fui o primeiro diretor executivo da Abvcap e só tenho visto o setor crescer ao longo do últimos nove anos. Estamos presenciando uma aceleração forte, com a entrada dos fundos de pensão em PE, e eles certamente vão chegar ao VC. Tudo isso prenuncia o fato de que essa atividade ainda não ocupa o espaço que deveria. Devemos ter um crescimento bom nos próximos anos, a perspectiva é muito animadora. A indústria de PE e VC é responsável por 12% da economia norte- americana e tem esse mesmo potencial aqui. No momento essa indústria representa somente 1,5% do PIB nacional. Ou seja, há espaço de sobra para crescer. A indústria de VC alavanca inovação, é fundamental nesse processo, é a atividade que vai criar um bom volume de inovação para o noso País.
Participações – Nesse sentido, de que maneira o venture capital pode ajudar o Brasil a superar seus problemas sociais e de desenvolvimento econômico?
Robert Binder – Principalmente por meio da geração de lucro e de riqueza. Quando se pega um produto qualquer de uma região, que foi desenvolvido ali, se cria riqueza naquele local, uma vez que há mais impostos e mais dinheiro circulando, fora os outros estabelecimentos que vão abrir na sombra daquele que foi bem sucedido. Um exemplo interessante acontece na cidade de São Carlos, no interior do Estado de São Paulo, que desenvolveu várias novidades que geram riqueza. A Opto Eletrônica São Carlos Ltda. é uma das companhias bem sucedidas da região. Ela nasceu em meados de 1985, desenvolvendo no Brasil o primeiro leitor de código de barra para uso em supermercados. O investimento em inovação e atuação em novos mercados levou a empresa a introduzir os tratamentos anti-reflexo para lentes de óculos no mercado brasileiro. Hoje, a Opto, que se beneficiou de programas de inovação, é um dos dois grandes players desse mercado, com faturamento anual na casa dos R$ 100 milhões.
Participações – Que outras iniciativas regionais poderiam se beneficiar de investimentos nessa linha?
Robert Binder – A Floresta Amazônica é um exemplo bastante interessante. O VC deveria examinar a organização da cadeia produtiva da indústria que começa a se estruturar naquela região, sustentada nos recursos de origem da floresta. Um dos casos que eu goto de citar é o da Amazon Dream, uma empresa que desenvolve produtos com a extração dos polifenóis da matéria orgânica local, para depois vender o extrato com um valor agregado altíssimo. A floresta Amazônica é riquíssima em material não explorado. Precisamos achar novas moléculas que podem criar novos rémedios, temos que aprender a preservar inteligentemente aquele sistema. Existe um projeto para criar mini usinas para gerar eletricidade em locais onde não se tem acesso a ela, por exemplo. Só precisamos fazer o impacto da tecnologia chegar até lá e o VC pode contribuir muito nesse sentido, injetando capital e acelerando os processos.
Participações – Por que os progressos brasileiros na ciência não geram mais negócios?
Robert Binder – Simplesmente porque não existe uma ligação boa entre o mercado e a ciência. São inúmeros os nossos pesquisadores, muito bem formados nos melhores centros nacionais e internacionais com dinheiro do CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), competentes, mais que ficam isolados no laboratório. Não há um caminho para levar esse trabalho para o mercado.
Participações - Quais foram as principais mudanças na legislação e iniciativas governamentais para o desenvolvimento do setor de VC/PE no Brasil?
Robert Binder – A maior parte do que foi feito está na esfera federal. A ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), entidade ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, vem trabalhando para fomentar o desenvolvimento industrial do Brasil, o que, por sua vez, ajuda muito no desenvolvimento do VC. Outros programas que merecem destaque são a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), com o projeto Inovar, a incubadora de fundos, o programa de subvenções, os fundos setoriais. Há também os Venture Foruns, além da Lei da Inovação e da Lei do Bem, que prevê incentivos fiscais as empresas que desenvolverem inovações tecnológicas. Tudo isso fornece alguns incentivos para empresas inovadoras, mas eles normalmente não têm continuidade nos estados e prefeituras. O governo estimula, mas tudo fica parado, o Ibama não concede a licença e por aí vai. Pode se dizer que por um lados há alguns facilitadores e, por outro, há uma série de barreiras.
Participações - Quais as maiores dificuldades para o investidor de VC no Brasil?
Robert Binder - Em primeiro lugar a carga tributária absurda, que consome uma boa parte dos ganhos. A forma como os impostos são cobrados é horrível – sobre o faturamento, antes de se ter um centavo de lucro sequer. O segundo problema é a legislação trabalhista, que cria um encargo enorme e uma incerteza jurídica absurda, dificultando o processo de sanfona que toda empresa tem que ter. Outro grande problema é a burocracia. Para abrir uma empresa, a burocracia é desesperadora, há mil exigências e tudo demora, ao passo que nas economias desenvolvidas se abre uma empresa em cinco segundos.
Participações - Você defende um novo modelo brasileiro de investimento em empresas nascentes inovadoras. Como seria isso exatamente?
Robert Binder – Primeiro temos que trabalhar com a realidade brasileira. O planejamento fiscal é importantíssimo e essencial dentro do nosso processo. Há ainda a necessidade vigente de se proteger a propriedade intelectual. Quase não se faz patente no Brasil. Temos que desenvolver uma fórmula mais eficiente de lidar com a questão do registro dos produtos e com as agências reguladoras, que são complexas e burocráticas.
Participações – Para que setores o VC está olhando com mais afinco no País?
Robert Binder – De uma forma geral, a agricultura é um negócio extraordinário. Somos muito competitivos no segmento de energias alternativas e no de biotecnologia, além de termos alguma coisa sendo feita em nanotecnologia.
Participações – Os fundos de pensão estão entrando mais nas operações de VC no Brasil?
Robert Binder – Os fundos de pensão ainda estão pouco interessados em VC. Na realidade, as fundações gostam de private equity, e acabam fazendo pouco VC e quase nada de capital semente.
Participações – Por quê?
Robert Binder – Posso citar dois motivos fundamentais: os fundos de pensão normalmente investem somas muito grandes e os fundos de VC, que estão trabalhando na base da economia, assim como os de capital semente, não interessam para as fundações, já que o volume de recursos demandados é muito pequeno. Outro motivo é que quando mais você vai para o início de uma cadeia, maior o risco. Fora do Basil é assim também, tanto na Europa como nso Estados Unidos, embora o paradigma empresarial daqui seja completamente diferente do destes países.
Participações - Quais seriam as principais diferenças de paradigma?
Robert Binder - Uma delas é que temos empresas menos preparadas em termos de planejamento financeiro e de conhecimento de mercado, além de menos inovadoras. Nós somos um país em desenvolvimento e, consequentemente, não temos as características que são encontradas nos desenvolvidos. É comum no mundo desenvolvido que o empreendedor já tenha um plano de negócio antes de falar com o financiador, por exemplo. Aqui as grandes companhias já estão adotando a sofisticação empresarial e a governança corporativa, mais isso ainda não é comum nas pequenas.